Periodicidade: Diária - Director: Armando Alves - 23/10/2021.
 
 
À CONVERSA COM.... MANUEL PIRES, CABO DOS FORCADOS DO RAMO GRANDE
À CONVERSA COM.... MANUEL PIRES, CABO DOS FORCADOS DO RAMO GRANDE
01 de Junho de 2021

Nem um toiro o pára

A poucos dias de completar mais um aniversário natalicio e com grandes provas dadas, o Forcadilhas eToiros esteve à conversa com.... um grande forcado da actualidade, Manuel Pires

Nome: Manuel Pires

Data de nascimento: 23 Junho 1986

Natural de: Agualva (Praia da Vitória)

Nacionalidade: Portuguesa

FT – O Manuel é o cabo do Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande. Há quanto tempo e qual o seu papel?

MP - Iniciei o meu percurso como Cabo do Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande a 7 de Agosto de 2017, na Corrida comemorativa do 10 aniversário do Grupo, por ocasião das Festa da Praia.

O meu papel dentro do grupo tem sido de liderar este grupo de amigos em toda a sua atividade, quer seja dentro, como fora de praça. Tenho tentado motivar os elementos do grupo, proporcionando novas experiencias aos mais novos, dando-lhes oportunidade de poderem evoluir como forcados e como homens de modo a serem os futuros pilares dos Amadores do Ramo Grande.

FT – É importante para um cabo e um grupo, o espírito de “Um por todos e todos por um”?

MP - Sem dúvida que na base de um grupo de Forcados deve existir uma grande união e um verdadeiro sentimento de amizade. A nossa atividade acarreta um risco tremendo, onde colocamos em risco as nossas próprias vidas, pelo que é primordial que exista uma ligação forte entre todos e um verdadeiro sentimento de família.

FT – O Manuel foi considerado pelo Clube Taurino Vilafranquense o Triunfador da Melhor Pega da Temporada 2018. Qual o significado deste prémio para si e para o seu grupo?

MP - Como já tive oportunidade de referir em algumas entrevistas, a praça de Vila Franca foi a praça onde me senti mais realizado como forcado. Pegar uma corrida na Palha Blanco é uma responsabilidade muito grande, não só por toda a história da Praça de Vila Franca, mas também pela enorme exigência do público, pois trata-se de uma terra de grandes forcados e com uma tradição muito grande no mundo da tauromaquia. O reconhecimento pelo Clube Taurino Vilafranquense foi a cereja no topo do bolo. Digamos que, para além da satisfação pessoal, como é natural, este prémio deu também um grande prestígio ao Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande. O percurso do nosso grupo tem sido feito gradualmente com muito sacrifício e entrega de todos, sendo que temos vindo a conseguir ganhar o nosso espaço não panorama taurino nacional, e acima de tudo temos conseguido ter o respeito de todos

FT – O seu grupo esteve representado, e bem, no Dia da Tauromaquia que se realizou no Campo Pequeno no dia 23 de Fevereiro de 2019. Como “vê” este tipo de iniciativas?

MP - Julgo ser de extrema importância este tipo de iniciativas por diversas razões: Primeiro porque permite ao aficionado disfrutar de um vasto leque de atividades taurinas durante um só dia, ou seja, permite às famílias poderem passar um dia inteiramente dedicado à tauromaquia, o que é extremamente benéfico para os aficionados mais jovens; em segundo lugar porque permite marcar uma posição de “Força e União da Tauromaquia”, com muitos intervenientes da nossa festa envolvidos neste dia

FT – Considera importante o convite e a presença dos grupos insulares nestas iniciativas?

MP - Considero que a presença de Grupos insulares é sempre benéfica em qualquer iniciativa. Ou seja, na minha opinião a insularidade das nossas ilhas faz com que não sejamos tão vistos ou expostos aos olhos da maioria dos aficionados e empresários, acabando por ficarmos “esquecidos” e, muitas vezes, circunscritos ao nosso ciclo taurino dos Açores. A participação nestas iniciativas permite-nos estar envolvidos numa realidade taurina diferente da nossa, podendo mostrar também ao país o nível da tauromaquia nos Açores. Para além de tudo isso, sendo uma iniciativa da ANGF faz todo o sentido que os grupos insulares também estejam presentes, tal como os restantes sócios da nossa associação.

FT – O Manuel foi chamado à cara do toiro na última pega do Festival Taurino desse dia e mais uma vez executou uma excelente pega. O que sentiu?

MP - Quando pegamos um toiro de caras é sempre uma sensação especial. Tendo em conta era um dia importante, que marcava o dia da Tauromaquia e sendo um evento no Campo Pequeno, obviamente que a sensação foi ainda mais gratificante. No final senti-me realizado porque consegui transmitir uma imagem positiva da figura do forcado amador.

FT – A 11 de Julho, novamente no Campo Pequeno, ocorreu a corrida de Homenagem à Região Autónoma dos Açores, na qual tivemos a presença dos dois grupos e de um cavaleiro, insulares. Qual a importância desta homenagem?

MP - Sinceramente penso que esta homenagem fez todo o sentido. Os Açores, especialmente a ilha Terceira, tem uma grande afición, e uma cultura taurina muito particular, quer seja na sua vertente mais popular das touradas à corda, quer seja na vertente mais erudita pelas touradas de Praça. Homenagear a região Autónoma dos Açores na primeira Praça do país foi sem dúvida um dia marcante para a tauromaquia açoriana pois é um reconhecer do esforço e dedicação que o povo dos açores tem à tauromaquia.

FT – Para além destes dois eventos estiveram ainda presentes em mais quatro corridas no Continente, nomeadamente na Figueira da Foz, em Paio Pires, em Ponte de Lima e por último em Coruche. Qual o balanço que faz destas participações?

MP - A Temporada 2019 foi extremamente positiva para os Amadores do Ramo Grande. Para além das habituais corridas que realizamos nos Açores, tivemos a oportunidade de pagar 5 corridas no continente, todas elas extremamente importantes para o Grupo. Destas digressões destacaria a corrida em Lisboa, onde tivemos uma prestação limpa e digna do Campo Pequeno; a corrida da Figueira da Foz onde tivemos uma viagem muito complicada com os voos cancelados para lisboa e onde tivemos de pernoitar no aeroporto de ponta delgada, chegando a lisboa apenas umas horas antes da Corrida na Figueira e pegamos a corrida dura da ganadaria Santos Silva; e por último a corrida de Paio Pires, onde tivemos uma noite muito dura, mas repleta de valor e entrega de todos os forcados, o que me fez sair muito satisfeito e orgulhoso com a nossa prestação.

FT – O Manuel, no Continente, ganhou o prémio de melhor pega em duas das corridas em que o grupo participou, Campo Pequeno e Paio Pires, onde efetuou uma pega histórica dado que o toiro partiu a trincheira e entrou por ela dentro consigo na cara. Qual o simbolismo destes prémios tanto para si como para o grupo? Dedica-os a alguém em especial?

MP - Os prémios são sempre bons de receber e são obviamente um reconhecimento do nosso mérito, no entanto uma pega é uma ação conjunta de todo o grupo e o valor é do grupo pelo que gostaria de dedicar estes prémios a todos os Forcados do meu grupo.

FT – Alguma destas corridas teve algum significado especial ou lhes deu maior satisfação?

MP - Naturalmente a corrida do Campo Pequeno teve um sabor especial. Primeiro porque estávamos na primeira praça do país, numa corrida de homenagem à nossa terra, em segundo lugar porque era a nossa segunda corrida da temporada, e logo com um grau de exigência tão elevado, ao que o grupo correspondeu com elevação e brilhantismo e isso deixa-me sempre muito satisfeito.

FT – Em Junho e em Agosto, do mesmo ano, decorreram duas festas importantes na vossa Ilha, as Sanjoaninas e as Festas da Praia, onde o seu grupo marcou presença. O saldo destas corridas foi positivo?

MP - Pegar na Monumental da Ilha Terceira é sempre positivo, porque é a praça da nossa terra e onde nos sentimos em casa. As duas corridas foram positivas para o grupo porque em ambas surgiram obstáculos e toiros complicados, tendo o grupo superado estas dificuldades, o que é sinal da maturidade e evolução que o grupo vai adquirindo.

FT – Estiveram também presentes nas tradicionais corridas da Graciosa e de S. Jorge. Qual o sentimento e a diferença entre as corridas nestas ilhas e as ocorridas na vossa?

MP - São duas ilhas que gostamos imenso de lá ir. São Jorge normalmente realiza uma corrida durante a semana cultural das Velas e tem sempre um ambiente fantástico. Na Graciosa realizam duas corridas, num fim de semana onde se respira muita afición e onde o grupo consegue estar 4 dias sempre junto, o que é extraordinário para o ambiente existente no seio do mesmo.

FT – Há quanto tempo está neste grupo e como foi o seu percurso dentro dele?

MP - Estou no Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande desde a sua fundação, ou seja, desde o dia 7 de Agosto de 2007.

O meu percurso no grupo tem sido bom, a meu ver. Tal como todos os forcados fui evoluindo ao longo dos anos, até que me consegui afirmar no grupo como forcado da cara. Em 2017, na corrida comemorativa do 10º aniversário dos Amadores do Ramo Grande, assumo o comando do grupo, dando continuidade ao trabalho que o cabo fundador (Filipe Pires) desenvolveu até então. Julgo que tem sido um percurso marcado pela resiliência e humildade, onde tenho colocado sempre o bom nome do grupo em primeiro lugar.

FT – Qual o balanço que faz das duas últimas épocas, tendo em conta que no ano 2020 devido à pandemia causada pelo COVID-19, tiveram menos corridas?

MP - O Balanço é muito positivo. A temporada 2019 foi bastante longa com várias corridas no continente e nos EUA tendo o grupo correspondido a todos os desafios. Em 2020, em plena pandemia, foi uma temporada difícil para todos, no entanto realizamos 4 espetáculos, 2 Festivais e 2 Corridas, sendo que a última a encerrar a temporada do Campo Pequeno.

FT – No passado mês de Agosto, após um adiamento, o Grupo conseguiu concretizar um Festival Taurino de Beneficência. Qual foi o seu balanço com todas as contingências exigidas pela Direção Geral de Saúde?

MP - Foi um Festival muito difícil de levar avante derivado à Pandemia COVID-19. Numa primeira instância o evento estava agendado para o mês de Maio, contudo, a pandemia e as restrições da DRS não permitiram a sua realização. Seguiram-se semanas de reuniões e debates com a autoridade de saúde regional na elaboração de um conjunto de medidas que permitissem a realização do mesmo e garantindo a segurança e a saúde de todos. Após muita persistência da nossa parte, conseguimos colocar de pé o Festival a 25 de Agosto, o qual teve uma adesão muito boa por parte do público e permitiu-nos contribuir com uma quantia de 2900 euros a cada uma das duas instituições a que nos propusemos ajudar.

FT – Além deste festival, o Grupo efetuou outros atos de solidariedade. Quer falar-nos deles?

MP - Sim, no início do período de confinamento, o Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande adquiriu uma vasta quantia de carne e com o apoio do Gabinete de Ação Social da Câmara Municipal da Praia da Vitória conseguimos identificar as famílias mais carenciadas do nosso município e conseguimos realmente ajudar os mais necessitados.

FT – Apesar das atuais incertezas causadas pela referida pandemia, quais os objetivos e projetos para o grupo na próxima temporada? Prevêem saídas para o estrangeiro?

MP - A pandemia, infelizmente, tem-nos limitado a todos, pelo que não consigo definir um objetivo a curto prazo. Tal como todos, pensamos dia a dia, não conseguindo planear nada, pois o dia de amanhã é sempre uma incerteza. Contudo, temos estado a trabalhar com a Camara Municipal da Praia da Vitória no sentido de conseguirmos arranjar um espaço que nos permita treinar na Praia da Vitória e que no futuro seja possível nos sedear neste mesmo local.

FT – Já passou por outro grupo? Qual?

MP - Não. Apenas fui forcado nos Amadores do Ramo Grande. No entanto, aquando da minha passagem pela cidade de Coimbra na fase dos estudos académicos integrei o Grupo de Forcados Tremores de Terra, grupo este composto por estudantes açorianos e que se juntam pare pegar a garraiada da queima das fitas.

FT – O que o levou a ser forcado e no seu ponto de vista, o que traz a forcadagem à personalidade de um homem?

MP - Nasci numa família muito aficionada, desde pequeno que as brincadeiras com gado bravo eram uma constante na família. Com 21 anos houve um grupo de amigos, do qual fazia parte, que decidiu formar um grupo de forcados. Penso que a principal razão que nos levou a ser forcados foi amizade e o companheirismo.

Integrar um Grupo de Forcados é uma escola de vida e de valores. Valores como a amizade, companheirismo, camaradagem, solidariedade são essenciais no seio de um grupo de forcados.

FT – Qual o peso da jaqueta na sua vida? Pode dizer-se que o Manuel nasceu forcado e será forcado toda a sua vida?

MP - O peso da jaqueta do Ramo Grande é o peso da responsabilidade. Enquanto elemento fundador deste grupo, cabe-me a mim tentar defender e honrar da melhor forma a jaqueta do Ramo Grande.

Há uma expressão já antiga que diz, forcado um dia, forcado o resto da vida. Penso que quem se sente verdadeiramente forcado, mesmo depois de despir a jaqueta o seu coração estará sempre dentro de praça com o seu grupo.

FT – Qual a sua maior preocupação em relação ao seu grupo?

MP - A minha maior preocupação com os Amadores do Ramo Grande é conseguir incutir nos mais jovens a paixão e o gosto pelos forcados e pelo grupo. Ou seja, tentar transmitir aos mais jovens os valores do nosso grupo, ensinar o que é ser forcado, ensinar a serem melhores aficionados de modo a que o futuro possa estar assegurado.

FT – Prefere ir à cara do toiro a ser primeiro ajuda. Explique-nos essa preferência.

MP - Não direi que seja uma questão de preferência, mas sim uma questão de sensibilidade e aptidão. Ou seja, desde início que os meus primeiros passos nos forcados foram dados como forcado da cara. Penso que cada forcado tem as suas características e que aos poucos vai se moldando a uma posição específica dentro do grupo. Embora hajam forcados muito versáteis e que se conseguem adaptar a qualquer posição e desempenham-na com eficácia, eu não sou um destes casos, sempre me assumi como forcado da cara e rabejador.

FT – Tem algum amuleto que o acompanhe sempre que entra numa praça?

MP - Os Amadores do Ramo Grande têm uma coroa do Espírito Santo que nos acompanha em todas as corridas. Ou seja, é um ritual do grupo antes de cada corrida vamos todos a capela da Praça e com esta Coroa do Espirito Santo a nossa frente rezamos todos juntos.

FT – Em que consiste o treino dos forcados? Pessoalmente, de que forma se prepara para as pegas?

MP - O Treino de Forcados é a forma de nos prepararmos para as corridas. No nosso grupo temos o hábito de treinar com tourinha no início da temporada, especialmente para corrigir alguns aspetos mais técnicos e até estéticos dos forcados. Depois treinamos com vacas e novilhos de forma a podermos evoluir tecnicamente e para os forcados começarem a ganhar sítio na cara dos toiros e como ajudas. Há um treino que eu considero fundamental no nosso grupo, que é o convívio e os jantares. Aí ganhamos laços, fortalecemos o sentimento de amizade e ganhamos cumplicidade, sendo estes valores e os princípios fundamentais para sustentar um grupo de forcados.

Eu pessoalmente treino da mesma forma que os restantes elementos. Treino com eles, procuro manter a minha forma física e acima de tudo preparo-me muito mentalmente para o momento da pega. Muitas vezes dou por mim sentado em casa a pensar em cada momento da pega e imagino-me a pegar um toiro nas mais diversas praças.

FT – Numa corrida, qual o significado da colocação do barrete pelo forcado que vai à cara do toiro?

MP - Para mim o colocar o barrete pelo forcado marca o inicio do cite. A meu ver a pega inicia-se desde o momento em que o forcado salta a trincheira. A forma como agarra no barrete e caminha ao longo da arena já faz parte da pega. Ao colocar o barrete, o forcado da cara inicia a pega, citando o toiro, dando-lhe as devidas vantagens e a partir deste momento se o toiro investir, o forcado terá de aguentar esta investida e tentar consumar a pega.

FT – Descreva-nos o papel de cada um dos oito forcados que realizam uma pega?

MP - De uma forma sucinta cada elemento tem uma função específica na formação dos 8 elementos:

O forcado de cara tem como principal objetivo citar o toiro, mandar, recuar e reunir a barbela ou a córnea, fechando-se de pernas e braços "enchendo" a cara ao toiro e aguentar a investida até a entrada do primeiro ajuda.

O primeiro ajuda tem como função ajudar a acoplar o forcado na cara do toiro e em situações em que a pega é carregada suportar o primeiro derrote do toiro juntamente com o forcado de cara até que entre o resto do grupo.

Os segundos ajudas ou pontas de bola, como o próprio nome indica, são os forcados que formam lado a lado com o objetivo de cada um ajudar no seu lado, agarrando o piton do toiro e o forcado de cara mantendo-o na cara.

O rabejador é o “homem do leme” e tem como principal objetivo agarrar o rabo do toiro o mais rápido possível depois da reunião do forcado de cara, quebrando o ímpeto do toiro e “guiando” o toiro para dentro do grupo. É também o forcado que finaliza a pega sozinho deixando o grupo sair em segurança e adornando-se com o toiro para rematar a pega da melhor forma.

Os terceiros ajudas são os últimos forcados da formação mas não têm menos importância por isso, procurando fechar e imobilizar do toiro. São também os elementos que têm o raio de ação mais largo porque em muitas ocasiões o toiro fugindo ao alinhamento do grupo são estes que têm mais tempo para poder reagir e chegar ao toiro para cumprir o objetivo final da pega que é a imobilização do toiro.

FT – Qual a diferença entre a pega de caras e a pega de cernelha?

MP - A pega de caras concretiza-se com 8 forcados na arena, cada um com as suas posições definidas, sendo que o forcado da cara tenta provocar a investida do toiro tentando trazer o toiro toureado para junto dos restantes elementos de modo a conseguirem pegar o toiro. Na pega de Cernelha, uma modalidade diferente de pegar os toiros, apenas saltam à arena 2 forcados, um cernelheiro e um rabejador. Aqui é necessário a presença dos cabrestos na arena de forma poderem tapar o toiro, e ser possível os forcados conseguirem entrar de forma eficaz e sincronizada. Atualmente, a pega de cernelha é utilizada como uma pega de recurso, contudo é uma pega com muito valor e que era bastante utilizada no passado.

FT – Lembra-se de que ganadaria era o primeiro toiro que pegou? O que sentiu?

MP - Sim, o meu primeiro toiro foi pegado na corrida de apresentação do Grupo, a 7 de Agosto de 2007, e pertencia a Ganadaria de Casa Agrícola de José Albino Fernandes. Neste dia senti um misto de sensações. Primeiro senti-me um privilegiado por ser um dos eleitos a pegar na primeira corrida do grupo. Depois a responsabilidade de pegar o último toiro da corrida, visto que as duas primeiras pegas tinham sido um sucesso e havia que tentar fechar a corrida com chave de ouro. Senti ainda uma enorme satisfação pessoal pois consegui superar-me a mim mesmo e pegar um toiro de caras, coisa que até aquele dia tinha sérias  dúvidas.

FT – Que tipo de toiro gosta mais de pegar?

MP - Gosto essencialmente de toiros bravos. Gosto de um toiro que se deixe mandar, que seja pronto na investida e que rompa pelo grupo a pedir contas aos terceiras ajudas.

FT – Durante o seu percurso nos forcados, existe algum momento que mais o tenha marcado quer positivamente quer negativamente?

MP - Naturalmente que nos forcados todos passamos por momentos melhores e outros menos bons. Enquanto forcado destacaria pela positiva o dia 3 de Maio de 2012, quando o Grupo apresentou-se pela primeira vez no Campo Pequeno, com 3 pegas à primeira concretizadas por mim e os meus dois irmãos como forcados da cara. Pela negativa não tenho nenhum momento que me tenha marcado. Aliás, tudo o que corre menos bem na ninha vida vejo como um momento de aprendizagem e de crescimento. Nos forcados é igual!

FT – Supomos que uma das maiores e melhores homenagens que já teve, foi efetuada pela sua esposa. Descreva-nos no que consistiu essa homenagem e o que sentiu nesse dia?

MP – É verdade, tive o prazer de ser brindado com um passodoble, intitulado “ Vamos Manel”, com letra de José João, interpretado pela minha mulher Rita, e composto pelo meu grande amigo Francisco Rocha da Banda da Associação Cultural do Porto Judeu. Foi uma homenagem que a Rita me quis fazer e que me deixou muito comovido porque fui apanhado desprevenido. Num concerto da referida Banda e com um auditório cheio, receber da minha mulher esta homenagem foi sem dúvida uma alegria imensa.

FT – Durante todo o seu percurso nos forcados, de que outras formas sentiu o apoio da sua família?

MP - Em todos os momentos senti o apoio da minha família. Lá em casa eramos 3 irmãos, todos forcados, pelo que não era nada fácil para os meus pais, principalmente a minha mãe, lidar com esta situação. No entanto, sempre nos apoiaram e foram sempre impulsionadores do nosso grupo. A Rita também sempre foi uma apoiante e uma acompanhante assídua do meu percurso nos forcados, ao ponto de vibrar intensamente com as pegas do nosso grupo.

FT – Em que praça sonha pegar?

MP - Desde sempre que tive 3 praças que sonhava pegar: Vila Franca; Campo Pequeno e na Praça México. As duas primeiras já consegui concretizar, veremos se ainda me resta tempo para concretizar o último sonho.

FT – O que pensa das ganadarias portuguesas?

MP - Julgo que temos muitas boas Ganadarias em Portugal. Não destaco nenhuma ganadaria em particular porque as ganadarias são de momentos. Ora tem temporadas em que lidam grandes toiros, ora tem momentos menos bons. Contudo, penso que há ganaderos em Portugal com um conceito de bravura e de seleção que eu admiro muito. Refiro-me a ganadarias como Murteira Grave, Veiga Teixeira, Palha, Rego Botelho, etc…

FT – Quais as principais dificuldades para uma maior presença do vosso grupo nas corridas Continentais?

MP - Naturalmente que insularidade é uma barreira muito grande à nossa ida com maior frequência ao continente, para além dos custos financeiro que estas deslocações acarretam para o grupo. No entanto, penso que temos conseguido pisar algumas praças importantes no continente.

FT – Que referências tem dentro da forcadagem, quer estejam no ativo ou retirados?

MP - Destacaria o Senhor Simão Comenda, pela sua humildade e simplicidade e pelo grande Forcado que foi, José Luís Gomes pela sua longevidade enquanto forcado e enquanto cabo dos AMADORES DE LISBOA e atualmente, pelo seu valor, Francisco Borges dos Amadores de Montemor.

FT – Como vê a tauromaquia em Portugal?

MP - Na minha opinião, a tauromaquia em Portugal enfrenta dias difíceis. A emergência de um maior número de partidos políticos com ideologias completamente desvirtuosas da realidade cultural do nosso país são uma afronta a um grande número de portugueses. A tauromaquia tem sido, dia após dia, discriminada pelos nossos governantes, e por alguns partidos políticos que acabam por ceder perante estas minorias partidárias para conseguirem manter o seu poder parlamentar.

É altura dos aficionados, de uma vez por todas, se unirem, de votarmos em consciência e de defendermos esta tradição tão genuína e tão portuguesa que é a tauromaquia. É tempo de sabermos agir e defender as corridas de toiros no local certo, na hora certa e com as pessoas certas.

FT – Para além de forcado, o Manuel é fisioterapeuta e tem ainda outras atividades. Pode mencioná-las e dizer-nos como as consegue conciliar?

MP - Para além de ser forcado, sou Fisioterapeuta de profissão. Trabalho atualmente no Hospital do Santo Espírito da Ilha Terceira e acompanho a equipa de Futebol do Sport Clube Lusitânia. Sou trompetista na Banda Filarmónica Espírito Santo da Agualva, sou participante assíduo do Carnaval da terceira como músico. Para além disso, costumo estar envolvido em muitas coletividades e associações da minha freguesia dando o meu contributo dentro da minha disponibilidade. Penso que conseguimos arranjar sempre tempo e conciliar as coisas, desde que exista paixão e entrega no que fazemos. É isso que tento fazer em tudo o que me comprometo participar na minha vida.

FT – No seu meio profissional sente algum tipo de discriminação por ser forcado ou pelo contrário sente que é valorizado por o ser?

MP - Pelo contrário, na minha atividade sou muito acarinhado e valorizado por ser forcado. Muitas pessoas quando aparecem nas minhas sessões de tratamento, no primeiro dia referem logo, que me conhecem dos forcados e das corridas de toiros, e isso enche-me de vaidade e felicidade porque felizmente, na ilha terceira, as pessoas são muito aficionadas e valorizam muito todas as atividades ligadas à tauromaquia.

FT – Descreva-nos a pessoa Manuel Pires, indicando-nos também projetos futuros.

MP - O Manuel Pires é uma pessoa simples e amiga. Alguém que olha para a vida com muita paixão e vive cada momento com muita intensidade. Sou uma pessoa resiliente, que nunca vira a cara à luta, nem aos obstáculos. Alguém que vê sempre um objetivo e uma conquista do outro lá das dificuldades/barreiras.

NUMA PALAVRA:

Um cavaleiro(a)?

António Telles

Uma ganadaria?

Veiga Teixeira

Um forcado?

Simão Comenda

Um toureiro?

Juli

Um bandarilheiro?

David Antunes

Uma praça?

Vila Franca

Um cavalo?

Ferrolho

Um colega?

GFA Ramo Grande

A sua melhor pega?

Praça Vila Franca Out. 2018

Um jogador?

Cristiano Ronaldo

Um filme?

Um destino de férias?

México

Um país?

Portugal

Uma cidade?

Praia da Vitória

Praia ou campo?

Campo

Comida favorita?

Bacalhau

Um clube?

Sporting

Um sonho?

Ser pai

Ter 80 anos e ver o meu Grupo a triunfar por estas praças fora


FT – Uma palavra/sugestão para o Forcadilhas e Toiros.

MP - Apenas uma palavra de agradecimento pela oportunidade e pelo excelente trabalho prestado na defesa e na promoção da tauromaquia. Enaltecer o facto de terem uma preocupação constante com a tauromaquia nos Açores.

Entrevista e fotos: Célia Doroana - Armando Alves - António Valinho