Periodicidade: Diária - Director: Armando Alves - 22/10/2018.
 
 
À CONVERSA COM O BANDARILHEIRO JOÃO PEDRO "AÇORIANO"
À CONVERSA COM O BANDARILHEIRO JOÃO PEDRO "AÇORIANO"
08 de Outubro de 2018

A dois dias de completar 32 primaveras e no ano em que cumpre 10 anos de alternativa, o Forcadilhas e Toiros esteve à conversa com… o bandarilheiro João Pedro Silva, mais conhecido por Açoriano”.

Nome: João Pedro Pacheco da Silva

Data de Nascimento: 10/10/1986

Natural de: Terra-Chã (freguesia do Conselho de Angra do Heroísmo)

Nacionalidade: Portuguesa

FT – O João Pedro é Bandarilheiro ou Peão de Brega? Qual a diferença entre os dois?

JP - A diferenciação entre as duas palavras é como se estivéssemos a olhar para as duas faces de uma mesma moeda de prata (passe o romantismo com o qual espelho a minha/nossa arte) e consoante a situação presencial que possamos estar a avaliar, podemos ver um ou outro lado da moeda, mas nunca dois toureiros diferentes. Pois bem, o que quero dizer com isto é que a própria composição vocabular da palavra já nos define a função. Bandarilheiro, dizemos quando o toureiro de prata realiza o tércio ou a função de bandarilhar/parear um toiro. O peão de Brega (ou Lidador como denominam os espanhóis) denomina o toureiro de prata que executa a lide/colocação do toiro em sorte nos terrenos e sortes correspondentes, falamos no fundo no maneio do capote para as funções as quais o toureiro de prata deve cumprir.

FT – Qual deles o faz sentir mais realizado?

JP - É um sentimento ambíguo e de resposta difícil porque para se ser um bom toureiro de prata deve ser-se completo em todos os tércios. Sempre tive uma colocação e uma facilidade inatas para bandarilhar desde os meus inícios, sorte esta da qual desfruto muitíssimo e donde fui mais laureado, mas tenho a consciência de que se apenas for bom com as bandarilhas sou “meio toureiro”, com o qual, luto diariamente por conseguir chegar a desfrutar e perfeccionar com o capote o mais possível, pois sabendo que é das duas partes a mais difícil, mas a mais importante para estar às ordens de um maestro. Se for bom “capotero”, posso ter algum futuro, se apenas for bom com as bandarilhas, não irei longe. Porque acima de tudo um toureiro de prata deve ser eficaz, por cima do luzimento, e no capote está a eficácia e o valor maior que posso ter e o “poder com os toiros”/dominá-los. Porque vejamos por exemplo, um maestro utiliza capote e muleta para, de encontro às características de determinado astado chegar ao triunfo, mas nas mãos do lidador se podem corrigir os defeitos ou manter as virtudes dessa investida. Investida essa que deve ser potenciada e jamais poderá ser prejudicada por maus capotazos e toques no capote, podendo comprometer o triunfo do maestro. No fundo sigo a utopia por ser um toureiro completo.

FT – Como nasceu o gosto por esta arte?

JP - Diz-se que toureiro se nasce e depois se faz, e nessa linha creio que algo nos vem nos genes, no nosso sangue corre algo magnético que nos atrai a esse animal. Um fascínio pelo toiro, pelo seu olhar, pelo seu odor, pelo seu movimento, a sua imponência, a sua majestosidade. Depois somos fruto do meio onde vivemos, e como tal, nasci numa das terras onde a afición ao toiro não tem limites e este animal é rei e senhor, adorado, venerado, respeitado e onde tudo gira à sua volta, social, cultural e artisticamente. O meu avô paterno, aficionado de alma,  foi quem me levou pela primeira vez ao campo, às touradas à corda, vacadas. Depois meu pai, outro enfermo desta arte, chegou a ser toureiro amador, fez parte de empresas taurinas, etc. Logo meu tio Rogério, primeiro bandarilheiro de alternativa dos Açores e o mais importante de sempre nesta Terra dos Bravos.

FT – Qual o papel da sua família na sua vida e na opção por esta actividade?

JP - Fundamental, creio ser o maior e principal pilar na minha vida como toureiro. Ter um seio familiar equilibrado, harmonioso, unido é a maior e consolidada base da qual pode nascer um toureiro e sinto-me bafejado pela sorte de ter tido uma família que me apoiou sempre e nunca me abandonou nem cortou as asas, porque sabiam que o que me fazia feliz era tourear. Por isso serão sempre os primeiros no meu pensamento e ser o melhor por eles, porque eles foram os melhores por mim.

FT – Como surgiu a alcunha de “Açoriano”?

JP - Essa foi a parte mais fácil de toda esta curta história, fui dos Açores para a Escola Agrária de Santarém tirar o meu curso superior em Produção Animal e ao mesmo tempo iniciei a minha carreira artística como toureiro, sendo o único toureiro Açoriano a tourear em terras continentais foi fácil de ser apelidado entre os meus colegas e faço questão de ser tratado assim do imenso orgulho que tenho da terra que me viu nascer.

FT- Como e quando se apresentou pela primeira vez em público?

JP - A primeira vez que me pus diante de uma bezerra tinha 12 anos (1998), numa festa de campo, a apresentação em praça foi em Junho de 2003, tinha 15 anos, num espectáculo para crianças integrado nas Sanjoaninas.

FT – À semelhança do que se passa por exemplo com os cavaleiros, também passou por várias provas? Onde e quando foram realizadas?

JP - Prova de praticante de bandarilheiro a 09/04/2005 em Azambuja, lidando o novilho/toiro da casa Ribeiro Telles e lidado pelo maestro António Telles e bandarilhando o novilho/toiro do novilheiro Paulo Sérgio. A alternativa de bandarilheiro a 28/06/2008 em Angra do Heroísmo, bregando os toiros do maestro João Salgueiro e bandarilhando os toiros do maestro El Cid.

FT – Recorda algum episódio curioso que tenha ocorrido nos dias das provas?

JP - O momento mais marcante de todos foi bandarilhar o toiro da ganadaria RB (Rego Botelho) e saudar de montera em mão com a praça de pé a ovacionar o meu tércio de bandarilhas. Inesquecível.

FT- Actualmente, faz parte da quadrilha fixa de algum cavaleiro ou matador?

JP - Sou bandarilheiro do maestro Rui Salvador pela quinta temporada.

FT – De que modo efectua a sua preparação para as corridas?

JP - Não sei se podemos classificar de “preparação para”… mas sim “viver para”… Além de uma natural base de preparação física que me dá o fundo de força explosiva e resistência para a lide de um toiro, dou principal preponderância ao toureio de salão, ao “laboratório” onde se formulam todas as “misturas” técnicas e estéticas e se aperfeiçoam detalhes e que permite conhecer na perfeição o capote e as bandarilhas ao pormenor e os seus segredos. Depois é o natural estudo permanente do toiro, da lide, do toureiro, através da leitura e vídeos.

FT – Como descreve o seu percurso na actividade de bandarilheiro / peão de brega?

JP - Parando a pensar creio ter sido um percurso que posso caracterizar como peculiar e curioso. Porque toda a base técnica e contacto com as reses bravas que normalmente os miúdos têm, eu nunca as tive e ao logo dos quase 14 anos que me visto de luces continua a suceder. Começar a tourear com “gado da Terra” nos Açores, não ter uma base técnica aprendida, mas sim uma forma própria de me defender dos animais e resolver os problemas que me fossem colocando com a ajuda do meu tio Rogério (bandarilheiro). Em Santarém com o Sr. João Pereira, que foi a maior e mais importante fonte taurina e quem tudo me ensinou do toureio nos meus inícios e preparar para a prova de praticante unicamente toureando de salão, sem ver uma única vaca e  conseguir superar. Somente toureando de salão sem ver um animal, preparar e passar com dignidade a alternativa. Seguir com 10 anos de alternativa toureando de salão todos os dias sozinho porque onde vivo não tenho companheiros ou maestros com quem debater e melhorar, apenas indo um par de vezes à escola dos maestros Badajoz ou do maestro Mendes, inclusive do meu colega João Boieiro para melhorar o tercio de bandarilhas. Ou da ganadaria Núncio que amavelmente me convida para os seus tentaderos donde posso desfrutar. Sendo o único tentadeiro que faço todo o ano. Resumo pois então uma carreira muito fundamentada na intuição, perseverança e na importância fulcral do toureio de salão que foi a base que me permitiu fazer o melhor que sei até hoje. Não culpo ninguém senão a mim mesmo, por não ter conseguido mais, ou foram as circunstâncias da vida que assim o definiram… Não sei.

FT – Considera ter tido maiores dificuldades ou menos oportunidades por ser insular?

JP - Creio que fui sempre respeitado pelos meus colegas e maestros, tirando as naturais exceções, e assim fui conquistando o meu lugar entre todos pouco a pouco.

FT – Já sofreu algum tipo de acidente que o fizesse questionar a continuidade nesta actividade?

JP - Posso falar com algum alívio que tenho tido uma carreira bonita e sem nenhum momento tão negro que me fizesse questionar abandonar esta arte. Assusta-me mais que se perca a ilusão e a afición.

FT – Qual a diferença entre o público das Ilhas Açorianas e o público de Portugal Continental? A afición é igual?

JP - Acima de tudo o respeito quase sagrado pelo Toiro, eixo central de tudo o que se passa e, se o toureiro se entrega e um toiro bravo investe, esta praça entra em ebulição. Mas primeiro de tudo… o toiro por cima de todas as coisas.

FT – Para além de Portugal, já bandarilhou noutros países. Quais?

JP - Espanha, França e EUA.

FT – Indique-nos uma praça onde sonhe actuar.

JP – Sevilha.

FT – Indique-nos um ou mais matadores com quem gostasse de “sair”?

JP - Morante de la Puebla, Manzanares, Ponce, Urdiales, Ferrera, Talavante. Se fosse numerar os antigos a lista era infindável…

FT – O que pensa das ganadarias portuguesas? Tem preferência por alguma em particular?

JP - No meu ponto de vista, falta variedade no seu todo, na fisionomia e comportamento, o leque ganadeiro está mais fechado, mais previsível e menos emocionante. Aprecio particularmente as ganadarias do Sr. António Silva, Veiga Teixeira e Vinhas.

FT – Qual o sentimento quando um toiro entra na praça para você actuar?

JP - É uma nova história, uma nova página em branco onde posso escrever essa mesma história, serei ou não capaz de entender esse mistério que esse toiro leva dentro e tirarei o maior partido dele?

FT – O toiro dos Açores é igual ou diferente do de Portugal Continental?

JP - Até determinada altura, o “toiro da terra” era utilizado para a corda como para a praça, mas naturalmente, com muita afición e empenho de todos os ganadeiros e entidades do meio, a pouco e pouco, ao longo de muitos anos, através de abertura de horizontes através de contactos com outros ganadeiros, trocas de impressões, da aquisição de vacas e sementais do continente e Espanha, o toiro da Terceira foi evolucionando e aproximando do toiro Peninsular, estando a um nível quase idêntico, dentro das diferenças de filosofia, meio ambiente e maneio particulares desta ilha.

FT – O que sente sentado numa bancada quando assiste a uma corrida?

JP - O quanto gostaria de estar vestido de toureiro naquele momento, e aplicar o que desde a bancada pensaria que fosse o mais adequado a esse determinado toiro ou momento da lide.

FT – Qual a sua opinião sobre o estado da tauromaquia em Portugal?

JP - Teria muito para escrever sobre esse tema, mas resumindo, a tauromaquia está viva, tem futuro, temos de ter esperança, mas acima de tudo sermos apaixonados por ela, profissionais, unidos e sérios. Se tal acontecesse, unido a um ou dois novos ídolos que fazem falta para levar o público às praças, detrás de um “Messias” e de rivalidade, e trazer de novo o toiro encastado, bravo e sério que emocione quem está nas bancadas e valorize quem com eles luta por um triunfo.

 

FT – No início do corrente ano, o João Pedro foi convidado pelo ATL da Câmara Municipal de Alcácer do Sal para dar a conhecer a tauromaquia aos jovens da Terra. Como decorreu essa experiência?

JP - Foi das experiências mais enriquecedoras que alguma vez vivi no mundo do toiro. Foi o abrir de uma janela tanto para mim, mas principalmente para as crianças. Na minha opinião foi feita a abordagem que devia ser sempre feita aos mais novos, dar-lhes oportunidade de escolha, dar-lhes instrumentos, argumentos, conhecimentos para eles depois terem o seu próprio juízo de valor e escolher o que mais os atrai. Não foi uma abordagem no sentido de os convencer a ser taurinos, mas abrir o livro da tauromaquia e ensinar um pouco deste mundo, que para todos eles era totalmente desconhecido e a alegria que me deu que ao abrir essa janela por eles próprios, quiseram entrar no meu mundo, emocionados, curiosos e motivados. Valeu a pena e não devíamos perder estas actividades, porque serão os aficionados de amanhã, ou pelo menos que respeitem quem gosta.

FT – Em Junho, decorreu uma das alturas mais importantes na sua Terra Natal… as festas “Sanjoaninas”. O João Pedro esteve presente em pelo menos uma das corridas de toiros que as integrou. Que expectativa costuma ter para estas corridas?

JP - Não quero parecer egoísta ou exagerado, mas passo todo o ano a pensar na feira taurina das Sanjoaninas. Para mim é a feira e a praça que mais me emociona, que mais respeito me impõe e que mais reconhecido fui. Diz-se que santos de casa não fazem milagres, mas desde que saem os cartéis, espero todos os segundos que o telefone toque e do outro lado me digam: “Queres tourear a feira este ano?”, ao qual respondo com um SIM cheio de alegria, orgulho e muita responsabilidade. Cada ano é distinto, cada ano me exigem mais e exijo mais de mim mesmo. É o marco do ano, e dele saio lançado ou destroçado para o resto da temporada animicamente, porque para mim é tudo. Estou entre os meus, os que me querem bem e os que me exigem e respeitam. O que sinto aqui não sinto em mais praça alguma.

FT – Como concilia o toureio com a sua vida particular?

JP - De momento muito bem, além do que é a minha situação profissional na herdade, focalizo todo o meu tempo e atenção ao Toiro.

FT – Como ocupa o seu tempo livre?

JP - Sou um apaixonado pelo campo, pelo Toiro, pelo cavalo e pelos prazeres que o campo traz. Por exemplo, numa noite de inverno depois de montar a cavalo pelo campo, no meio do gado, acender uma lareira, com um bom vinho, ouvir um fado e falar de toiros entre amigos já me é mais que suficiente.

FT – Para além desta actividade, o que faz no seu dia-a-dia?

JP - Sou o Engenheiro responsável pela gestão de uma herdade no concelho de Alcácer do Sal.

FT – Até quando teremos o prazer de ver o “Açoriano” nas nossas praças?

JP - Até as pernas, o coração, a sorte, a ilusão e a afición juntas o permitirem.

NUMA PALAVRA:

Um cavaleiro(a)?

Mestre João Núncio 

Uma ganadaria?

Victorino Martín      

Um forcado?

João Pedro Ávila

Lide a pé ou a cavalo?

Toda a Tauromaquia           

Um bandarilheiro?

El Vito           

Uma praça?

Maestranza de Sevilla

Um clube?

Sporting  

Um sonho?

Ser bandarilheiro de uma figura do toureio e viver de e para o toiro 

Cavalos ou toiros?

Toiros  

 

Um jogador?

Figo    

Um filme?

Brave Heart  

Um destino de férias?

Ilha Terceira

Um país?

Áustria

 Uma cidade?

Sevilha           

Praia ou campo?

Campo 

Comida favorita?

Sopas do Espírito Santo   

Um livro?

“Que es torear?” de Gregorio Corrochano

Açores ou Portugal Continental?

Açores

Uma palavra/sugestão para o Forcadilhas e Toiros.

Que continuem a promover e a divulgar a tauromaquia com afición, respeito e seriedade. Uma Tauromaquia unida depende de todos.

Entrevista: Célia Doroana

Fotos: Armando Alves