Uma tarde de entrega para fechar a Feira de São João
A Feira Taurina de São João chegou ao fim na tarde de 24 de junho, Dia de São João, com uma corrida mista que reuniu três formas distintas de sentir e interpretar o toureio. Frente a exemplares das ganadarias de Rego Botelho e João Gaspar, atuaram os cavaleiros João Moura Jr. e João Ribeiro Telles e, na lide apeada, o matador de toiros espanhol Fernando Adrián. As pegas estiveram a cargo dos Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e dos Amadores do Ramo Grande.
Depois de três tardes de toiros, a Monumental Praça de Toiros Ilha Terceira voltou a receber uma afición desejosa de encerrar a Feira de São João com a mesma intensidade com que a havia iniciado. Sentia-se no ambiente o peso de uma data profundamente ligada à história taurina terceirense, numa tarde em que a tradição, a rivalidade artística e o respeito pelo toiro voltaram a encontrar-se no centro da arena.
João Moura Jr. abriu praça frente a um bonito e bom toiro de João Gaspar. O cavaleiro de Monforte iniciou a lide com uma sorte de gaiola de bom efeito e, no tércio de curtos, voltou a demonstrar as razões pelas quais marcou presença em todas as corridas da feira. Aproveitou as boas investidas do oponente, recebeu-o com decisão e rematou as sortes com a expressão e o carácter a que já habituou o público terceirense.
No segundo do seu lote, um exemplar de Rego Botelho mais reservado, João Moura Jr. mostrou-se entregue e capaz de ultrapassar as dificuldades colocadas pelo toiro. Sem perder o sentido da lide, procurou dar emoção à sua atuação e terminou a prestação com duas boas mourinas, encerrando de forma digna uma feira em que assumiu especial protagonismo.
João Ribeiro Telles teve uma atuação correta no primeiro do seu lote, frente a um toiro de João Gaspar inicialmente reservado, mas que acabou por crescer ao longo da lide. O cavaleiro procurou sempre respeitar os terrenos e dar continuidade às investidas, construindo uma atuação segura e equilibrada.
Contudo, a grande obra de João Ribeiro Telles ficaria reservada para o seu último toiro da feira. Diz a velha máxima que não há quinto mau, e o quinto da tarde, da ganadaria de Rego Botelho, confirmou o ditado. Com tranco, transmissão e vontade de investir, permitiu ao cavaleiro desenvolver uma lide de grande nível, marcada por ferros ao estribo, reuniões ajustadas e momentos de verdadeira toureria. Foi uma atuação com sentimento, classe e entrega, claramente ao gosto do público.
Na arte de Cúchares, Fernando Adrián apresentou-se frente a um nobre exemplar de Rego Botelho. O matador madrileño recebeu-o com chicuelinas de bom corte e, já de muleta, desenhou boas tandas pela mão direita, conseguindo ligar os passes com firmeza e expressão. Durante a faena sofreu uma aparatosa voltareta, que não lhe retirou determinação nem o impediu de regressar à cara do toiro e procurar o triunfo.
O segundo toiro do seu lote, também de Rego Botelho, revelou-se mais reservado e menos colaborador. Fernando Adrián procurou construir uma faena correta, assente na técnica e na disposição, mas o conjunto acabou por não romper.
No capítulo das pegas, viveu-se uma verdadeira exaltação ao moço de forcado, tal foi a valentia demonstrada perante a dureza de alguns dos toiros da tarde. Fica uma palavra especial de apreço e votos de rápidas melhoras para Francisco Matos e Luís Valadão, ambos vítimas de colhidas de grande violência.
Pelos Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, Tomás Cunha concretizou uma boa pega à primeira tentativa. Para a cara do quarto toiro avançou Francisco Matos, que sofreu uma arrepiante colhida diante de um duríssimo exemplar de Rego Botelho. Foi depois dobrado por Eduardo Rico, que resolveu a pega a sesgo, num momento de grande coragem e espírito de grupo.
Pelos Amadores do Ramo Grande, abriu praça o cabo Rui Dinis, diante do toiro mais pesado da feira, concretizando a pega à primeira tentativa e sem dificuldades. Para o quinto da tarde foi chamado Luís Valadão, que sofreu igualmente uma forte colhida, ficando impossibilitado de concluir a pega. Foi dobrado por Gonçalo Batista, que resolveu também a sesgo.
Chegava, assim, ao fim mais uma Feira Taurina de São João, deixando para trás tardes de emoção, arte, valentia e entrega na Monumental Praça de Toiros Ilha Terceira. Durante vários dias, a afición voltou a reunir-se em torno de uma tradição profundamente ligada à identidade terceirense, celebrando o toiro, os artistas, os forcados e todos aqueles que continuam a dar vida à Festa.
Fecha-se agora mais um capítulo das Sanjoaninas, mas permanece a memória do que se viveu e a certeza de que, quando junho regressar, a Ilha Terceira voltará a vestir-se de festa para receber novamente a sua feira taurina. Esta pérola perdida no meio do Atlântico voltou, uma vez mais, a fazer jus a uma expressão que lhe pertence por direito: “Terra dos Bravos”. E, sim, esta foi verdadeiramente uma feira de bravos.
27 junho 2026
Fotos: Armando Alves
Crónica: Lucas Fagundes
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