Uma noite de emoções e passagem de testemunho na Palha Blanco
João Moura Júnior e António Prates assinaram os melhores momentos do toureio a cavalo, numa corrida que ficou sobretudo marcada pela despedida de Vasco Pereira da chefia dos Amadores de Vila Franca de Xira e pelo início de um novo ciclo com Rodrigo Dotti.
Há noites em que o significado de uma corrida vai muito além do que acontece na arena. Foi precisamente isso que se viveu na passada terça-feira, 6 de outubro, na Praça de Toiros Palha Blanco, em Vila Franca de Xira. Em plena celebração dos seus 125 anos, a histórica praça ribatejana recebeu a tradicional corrida noturna da Feira de Outubro, que ficou inevitavelmente associada à despedida de Vasco Pereira da chefia do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira e à passagem de testemunho a Rodrigo Dotti.
Para esta noite, a empresa reuniu os cavaleiros João Salgueiro, João Moura Júnior e António Prates, que enfrentaram seis exemplares da ganadaria Veiga Teixeira. As pegas couberam, em solitário, aos Amadores de Vila Franca de Xira, que assumiram um protagonismo especial perante a sua afición.
João Salgueiro não conseguiu corresponder inteiramente às expectativas de quem esperava uma passagem de maior expressão pela Palha Blanco. No primeiro toiro, encontrou um adversário encastado e poderoso, que lhe colocou dificuldades e exigiu capacidade de adaptação. O cavaleiro procurou ultrapassar essas exigências, deixando alguns ferros curtos de boa nota, mas sem conseguir estabelecer uma ligação suficientemente consistente para conferir maior dimensão à lide.
Na segunda lide, as dificuldades voltaram a fazer-se sentir. Salgueiro não encontrou os argumentos necessários para dominar a situação, numa atuação em que faltaram maior ligação e capacidade de resolução. O conjunto das duas lides acabou por resultar numa passagem discreta, distante da dimensão artística que tantas vezes demonstrou nesta mesma arena. João Moura Júnior teve uma noite de dois momentos bastante diferentes. Na primeira atuação, deparou-se com um toiro pouco disponível para a lide, que demonstrava escassa vontade de investir e mantinha frequentemente a atenção no exterior da arena. O cavaleiro procurou contrariar essas limitações através da experiência e do conhecimento dos terrenos, cumprindo com correção, mas sem conseguir alcançar momentos de particular emoção.
Tudo mudaria no quinto toiro, o exemplar de Veiga Teixeira que melhores condições apresentou durante a corrida. Moura Júnior recebeu-o com um ferro comprido em sorte de gaiola e, desde cedo, revelou intenção de aproveitar as possibilidades do adversário. Nos curtos, destacou-se pela precisão das reuniões e pela forma como preparou as sortes, com batidas ao pitón contrário e uma brega que permitiu valorizar as investidas. As passagens a duas pistas constituíram alguns dos momentos mais conseguidos, numa atuação marcada pelo domínio dos terrenos e pela ligação estabelecida com as bancadas. Foi uma boa lide, perante um toiro que recebeu aplausos no regresso aos currais e cuja prestação valeu ao maioral da ganadaria uma volta à arena.
Esta atuação ficou também associada à despedida de Benito Moura, primo e bandarilheiro de João Moura Júnior, que encerrou nessa noite o seu percurso profissional. O momento foi assinalado pelo cavaleiro, num gesto de reconhecimento pela dedicação e pelo caminho partilhado ao longo dos anos.
António Prates voltou a confirmar que atravessa uma fase de afirmação e que tem vindo a conquistar o exigente público vilafranquense. No primeiro toiro, apresentou-se decidido, procurando desde o início dar expressão ao seu conceito de toureio. Conseguiu uma atuação com ritmo e interesse, em que sobressaíram a qualidade de vários ferros, a escolha dos terrenos e a forma como foi encurtando as distâncias. A brega e os remates contribuíram para valorizar o conjunto.
No último exemplar da corrida, Prates encontrou um adversário que exigia atenção e capacidade de adaptação. Sem alcançar os momentos mais conseguidos da primeira passagem, manteve uma linha de regularidade, procurando executar as sortes com correção e aproveitando as possibilidades que o toiro ofereceu. Foi uma atuação menos emotiva, mas reveladora da evolução técnica e da maturidade que o jovem cavaleiro tem demonstrado.
Se o toureio a cavalo proporcionou momentos de qualidade desigual, foi na atuação dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira que se concentrou a maior carga emotiva da noite. Com a responsabilidade de pegar os seis exemplares de Veiga Teixeira, o grupo apresentou-se perante o seu público numa ocasião que assinalava o encerramento de um ciclo e o início de outro.
Rodrigo Andrade abriu a atuação com uma pega conseguida à primeira tentativa, demonstrando firmeza na cara do toiro e beneficiando de uma intervenção decisiva de Rodrigo Dotti na primeira ajuda. Seguiu-se Lucas Gonçalves, que precisou de duas tentativas para consumar, perante um adversário que exigiu determinação.
O terceiro toiro trouxe consigo um dos momentos mais significativos da corrida. Vasco Pereira, na sua última atuação enquanto cabo, voltou a colocar-se diante de um toiro para realizar uma pega carregada de simbolismo. Citou com serenidade e resolveu à primeira tentativa, despedindo-se da melhor forma possível das funções que desempenhou ao longo dos últimos anos. O público correspondeu com uma prolongada manifestação de reconhecimento, durante uma emotiva volta à arena.
Na segunda metade da corrida, Vasco Carvalho concretizou à segunda tentativa, numa pega em que as ajudas tiveram um papel importante. Guilherme Dotti enfrentou maiores dificuldades, necessitando de quatro tentativas para conseguir consumar. A última pega coube a Rodrigo Camilo, que encerrou a atuação do grupo com uma excelente execução à primeira tentativa, marcada pela firmeza na reunião e pelo trabalho das ajudas, novamente com Rodrigo Dotti em evidência.
Mas a importância desta noite não se esgotou nas pegas. A passagem de testemunho representa uma passagem de responsabilidades numa instituição com um profundo significado para Vila Franca de Xira. Ser cabo de um grupo de forcados não se resume a orientar homens dentro de praça. É assumir uma responsabilidade coletiva, preservar princípios e representar uma história que começou muito antes de cada um dos seus protagonistas.
Quanto ao curro de Veiga Teixeira, a apresentação esteve à altura da exigência da Palha Blanco, com exemplares imponentes, sérios e de presença assinalável. O comportamento, porém, ficou longe de apresentar a mesma uniformidade. Vários toiros revelaram pouca disponibilidade para colaborar, limitando as possibilidades dos cavaleiros.
CRÓNICA: Lucas Fagundes
FOTOS: Armando Alves
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