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À CONVERSA COM A CAVALEIRA ANA RITA
À CONVERSA COM A CAVALEIRA ANA RITA
14 de Abril de 2014

O Forcadilhas e Toiros foi até ao Cartaxo e esteve à conversa com uma Cavaleira de armas... Ana Rita

Ana Rita dos Santos Costa de 25 anos de idade, natural de Vila Franca de Xira, uma cavaleira com garra, que não desiste facilmente e encara as situações da vida como se de um toiro se tratasse.

Depois do grave acidente que sofreu, na praça do Cartaxo, após o seu cavalo ter escorregado, prepara-se agora para voltar às arenas no próximo dia 20 de Abril em Padron, Galiza, Espanha.

Esperando vê-la brevemente em praças portuguesas, aqui deixamos a reportagem da nossa conversa.

FT - A Ana Rita é cavaleira profissional desde quando?

AR - Toureei pela primeira vez a 31 de Maio de 2003, em Alcochete e sou cavaleira profissional desde 5 de Agosto de 2011, tendo tirado a confirmação em 2 de Agosto de 2012, na Praça do Campo Pequeno.

FT - Como nasceu o gosto pela arte de tourear?

AR - Desde pequena, sempre tive cavalo em casa. Ia às corridas de toiros e sempre fui muito aficionada, até que quis ser eu a estar dentro da arena, como cavaleira.

FT - Ainda se recorda do dia em que vestiu a sua casaca, pela primeira vez?

AR – Sim. Foi no dia 14 de Maio de 2005, dia em que tirei a Prova de Praticante, na Azambuja. Foi um dia muito emocionante. Um sonho concretizado!

FT - Onde e quando obteve a alternativa? Quem foi o seu Padrinho?

AR - Obtive a alternativa na Corrida da RTP, no Redondo, em 5 de Agosto de 2011. O meu Padrinho foi Manuel Jorge de Oliveira e foram testemunhas António Ribeiro Telles, Luís Rouxinol e Tito Semedo.

FT - Para além de si, quem está por detrás do sucesso que tem vindo a ter nas praças nacionais e estrangeiras?

AR – Uma equipa muito grande. O apoderado espanhol Francisco Cáceres, o Mestre Manuel Jorge Oliveira, o Moço de Espadas, etc. É necessário muita união, sermos como família, para tudo dar certo.

FT - Como concilia o toureio com a sua vida particular?

AR – É difícil separar o toureio da vida particular. Estão sempre misturadas porque em qualquer conversa estão sempre os cavalos e os toiros no meio, sendo eles conversa diária. Os meus dias são passados aqui na quinta.

FT - Quantas horas treina por dia?

AR – Não há horas! Começo a montar os cavalos ás 8h e 30mn, treino todos os dias, domingos, feriados… só com trabalho é que se vai a algum lado.

FT - Como ocupa o seu tempo livre?

AR – Não há muito tempo livre, porque estou sempre na quinta. Quando chego a casa, estou cansada! Saio de vez em quando, mas é raro, sou muito dedicada à profissão. 

FT - O que gosta de fazer para além de tourear?

AR – Pergunta difícil. Quando não toureio gosto de andar a cavalo pelo campo. Quando não tenho corridas, à noite, vou ver o mar e saio um pouco com amigos de todas as idades. Gosto de uma ida a um Bar no Cartaxo, gosto de Fado e de Sevilhanas e não gosto de discotecas.

FT - O que seria profissionalmente se não fosse cavaleira?

AR – Teria que estar forçosamente ligada aos cavalos. É difícil responder porque não me vejo fora das lides. Gostaria de ter sido veterinária. Já vou sabendo muito sobre os animais, já consigo ter a percepção do que os cavalos estão a sentir, do que estão a precisar, se estão bem ou mal…

FT - Acha que o seu percurso nesta profissão foi mais ou menos difícil por ser mulher?

AR - Não foi difícil. Acho que pelo facto de ser mulher, foi mais fácil, porque o público demonstra mais carinho.

FT - Encontra diferenças no toureio de um homem e de uma mulher? Se sim, quais são essas diferenças?

AR - Não há muita diferença. Pelo que dizem, a mulher cavaleira é forte e tem presença em Praça e como eu meto muita emoção não mostro ser frágil, consigo fazer um bom toureio não me diferenciando de um homem.

FT - Descreva-nos o seu toureio.

AR - É um toureio frontal, sério e depois de conseguir bons ferros, gosto de mostrar irreverência e alegria. Tento fazer coisas diferentes para que o público goste e fique contente por gastarem o seu dinheiro a ver-me tourear. Gosto de sentir o espectáculo.

FT - O que é para si um bom toureiro/uma boa toureira?

AR - Um bom toureiro é aquele que sabe estar em Praça, que coloque ferros de verdade e consiga dar emoção. É aquele que treina os seus cavalos. É preciso muito trabalho para que o cavalo se ponha bem. Tenho cinco ou seis cavalos que fui que os pus a tourear.

FT - O que entende por uma boa lide?

AR – Uma boa lide é uma boa brega, sortes bem desenhadas, ferros de verdade ao estribo e é muito importante dar emoção e alegria na Praça.

FT - Tem algum toureio que lhe sirva de inspiração? Algum ídolo?

AR – Todos são importantes e especiais por se colocarem à frente de um toiro. Todos são corajosos e é um orgulho vê-los na Praça. Sonhar pelo sonho é tudo, eu não tenho ninguém na família ligado aos toiros, pelo que sempre sonhei e tenho-os concretizado.

FT - Com quem gostava de partilhar um cartel?

AR – Foi muito importante ter o Mestre ao meu lado e a dar-me a alternativa. Gostaria de tourear com o Pablo Hermozo e com o Diego Ventura porque são figuras mundiais, têm bons cavalos, bom nome na tauromaquia e carreira consolidada. Em Portugal, gostaria de partilhar cartel com o Rui Salvador e Luís Rouxinol, e com o Joaquim Bastinhas pela sua irreverência e à vontade.

FT - Com quem gostava de partilhar uma lide?

AR – Gostava de partilhar com o Mestre Manuel Jorge. Ele já se despediu, mas tenho o sonho de ainda poder partilhar uma lide com ele.

FT- Qual o seu sentimento em relação aos forcados?

AR – Os forcado têm de ter um grande coração para enfrentar um toiro valente, um animal tão imponente e fazerem as pegas que fazem. Têm um grande valor.

FT - Sente que os forcados são parte importante numa corrida?

AR – Muito importante. Se não existisse forcados a Festa não era a mesma. A nossa cultura é o cavaleiro e o forcado, infelizmente o toureio a pé já não é tanto.

FT - Indique-nos uma praça onde sonhe actuar.

AR – Madrid e Sevilha. É complicado entrar nesta Praças, mas há perspectiva de o fazer. O ano passado, ficando no terceiro lugar do Escalafon, eram obrigados a levar-me lá, mas com o sucedido… Agora este ano, tenho de batalhar outra vez para ficar nos três primeiros.

FT - Resumidamente, descreva-nos a sensação de ver um touro sair à arena para ser lidado por si.

AR – Primeiro, peço a Deus que tudo corra bem e que o toiro contribua para o meu êxito. É uma sensação boa vê-lo sair, pois dá sinais da sua gana, raça, para um bom toureio e poder agradar o público. O público é a minha maior preocupação.

FT - Falemos agora da sua colhida em 2013. O que aconteceu na tarde do dia 7 de Setembro de 2013, no Cartaxo? O que correu mal?

AR – Estava a preparar-me para colocar o último ferro curto. O cavalo de um momento para o outro caiu das patas e só vi o toiro a avançar para mim. Fomos batidos contra as tábuas, tendo ficado entalada. Dois senhores ajudaram-me e eu ainda quis ir terminar a lide, mas acabei por perder as forças.

FT - Que lesões sofreu?

AR – Parti a bacia em três sítios e tive uma contusão hepática com 6 cm no fígado. Estive internada no hospital de Santarém um mês. Foi uma estada muito difícil, mas fui muito bem tratada. Uma equipa muito boa.

FT - Quanto tempo esteve parada, sem poder treinar?

AR – Estive sem treinar quatro meses, comecei a montar em Janeiro.

FT - Que apoios teve na sua recuperação?

AR – Tive muito apoio, do apoderado, da família, dos amigos e o que mais me surpreendeu foi o apoio do público português e dos aficionados. Como não toureio muito em Portugal não estava à espera de receber tantas mensagens de melhoras, de apoio, como recebi. Agora estão à espera da minha reaparição e dizem que vai ser praça cheia e eu espero que sim porque vai ser um dia muito importante para mim e de muita emoção porque podia nunca mais voltar a tourear.

FT - Entende necessária uma maior cobertura, a nível de seguro, para este tipo de acidentes? Acha necessária a existência de seguro?

AR – Eu não tinha seguro, mas o Sindicato dos Toureiros ajudou-me em tudo o que precisei, hospital e fisioterapia. Agradeço muito ao sindicato pela ajuda prestada. Em termos de seguro nunca tive nenhum e não sei dizer se era bom ou não. Penso que seria bom a existência de um seguro. Depois do acidente, uma seguradora esteve a conversar comigo e estou a ponderar fazê-lo para estar assegurada, se acontecer alguma coisa é sempre bom.

FT - Como se sente ao regressar às Praças?

AR – Muito feliz! Na altura do acidente podia ter ocorrido que nunca mais pudesse voltar a tourear e isso para mim é morrer. Então, esse dia vai ser muito importante para mim, voltar a pisar uma arena. Regressar é novamente um sonho.

FT - Qual é a sua quadra para 2014?

AR – De saída tenho três cavalos, o Palmela, um castanho novo e o Bacano. De curtos tenho o Ás de Ouros, o Capitão, o Roedo e o Cisne. E tenho mais três que são o Casto Era, o México e o Zairo, estes são de matar e de violinos – último tércio, mas também dão para tourear.

FT - Quantas corridas pensa fazer em 2014? Pensa tourear fora de Portugal? Se sim, onde?

AR – Quero sempre fazer mais ou menos 40 corridas por ano, entre Portugal, Espanha e França, sendo que 30 das corridas são feitas em Espanha. Tenho uma corrida confirmada para o dia 20 de Abril em Padron, Galiza – Espanha, para ver como é que eu e os cavalos estamos, pois não fui só eu que estive parada, os cavalos também estiveram.

FT - Que tipo de toiros gosta que lhe saiam em sorte?

AR – Um toiro que transmita e um toiro que siga atrás do cavalo e dê emoção. Preciso de um toiro que ande, que não esteja parado e que se arrime atrás do cavalo.

FT - Alguma ganadaria em especial?

AR – Não, gosto de todas, desde que os toiros saiam bem… Temos de tourear de tudo, não podemos escolher e não é pelo nome da ganadaria que eles vão sair bem ou mal. Nós não sabemos, só quando saem é que se vê.

FT - O que pensa das Ganadarias portuguesas?

AR – Penso que temos ganadarias muito boas e que têm dado boas corridas.

FT - Que pensamentos e ideias lhe transmite um novo Apoderado quando a estimula a realizar corridas fora de Portugal?

AR – Já toureei na América, em França, tento sempre fazer o meu toureio e o meu apoderado diz-me que onde quer que vá tourear tenho de ser como sou. Então, é o que faço seja em Portugal ou em Espanha o meu toureio é sempre igual. Também gosto muito de tourear em França porque é sempre Praça cheia e há uma afición muito grande.

FT - Vai continuar a ser apoderada por…

AR – Em Espanha, por Francisco Cáceres e em Portugal, por Maurício do Vale.

FT - Que papel tem o apoderado na sua carreira? Entende como útil o seu papel?

AR – Um apoderado é muito importante na carreira de um toureiro porque incentiva-nos, acompanha-nos e apoia-nos quando vamos tourear e esforçam-se muito por conseguir bons contratos. Os toureiros têm de se preocupar em trabalhar os cavalos, não nos podendo preocupar em falar com os empresários para arranjar corridas. Por isto, entendo como útil o papel do apoderado.

FT - Como encara o aparecimento de novos valores tauromáquicos?

AR – Acho muito importante e um bom sinal termos mais jovens a tourear, é sinal de que a Festa nunca acaba, são valores importantes e precisos.

FT - Gosta de assistir a corridas de toiros?

AR – Adoro, mas é muito complicado estar da parte de fora. Tenho um espírito crítico e é fácil de falar na bancada.

FT - O que sente sentada numa bancada quando assiste a uma corrida?

AR – Se conhecer bem o toureiro, sinto aflição, medo, preocupação para que nada de mal lhe aconteça.

FT - O que sente ao entrar numa praça e a vê a meia praça?

AR – Quando entro numa praça e vejo a praça cheia fico com os pêlos todos arrepiados e é logo outra sensação, dando mais vontade ainda de fazer melhor para não defraudarmos o público.

FT - O que acha que poderia ser feito para chamar/atrair mais pessoas às praças?

AR – Primeiro, não estarem sempre a repetir os cartéis, os empresários deviam apostar na diversidade de cavaleiros, de modo a criar mais oportunidades em Portugal. Deviam rever os preços dos bilhetes, promovendo o bilhete familiar. Penso que se colocarem preços mais baratos conseguem colocar mais pessoas na Praça, do que se os preços forem mais caros. A Festa Brava deve ser mais promovida. Em Espanha, os toureiros são reis, são bem tratados e após o espectáculo as pessoas convivem com os toureiros tentando conhecê-los melhor. Em Portugal, somos bem tratados, mas terminado o espectáculo, se estiverem vestidos normal é como se não os conhecessem.

FT - Que balanço faz da sua carreira?

AR – Vai fazer 11 anos, tem sido uma carreira com altos e baixos porque tive problemas pessoais que atrapalharam a minha carreira, mas desde a alternativa tenho conseguido progredir de ano para ano, consolidando a minha carreira de forma muito positiva.

FT - O que pode ser feito para melhorar a Festa dos Toiros em Portugal?

AR – Acho que os toureiros deveriam ser mais participativos, mais presentes após as corridas, a fim de se darem a conhecer.

FT - Entende necessário investir mais na festa brava? Remodelar Praças de Toiros? Organizar melhor as Festas dos Toiros?

AR – Sim, deveria existir um programa televisivo, para as pessoas terem mais ligação com a festa, para divulgar a festa e os toureiros, para as pessoas terem contacto com os toureiros. Em Espanha, há imensos programas televisivos e em Portugal o único que existia, acabou.

FT – Como é que a Ana Rita se define.

AR – Como pessoa sou humilde, amiga do seu amigo, muito divertida. A nível de trabalho, sou muito teimosa, quando quero uma coisa não desisto até conseguir e sou muito perfeccionista exigindo, até demais, de mim própria.

NUMA PALAVRA:

A sua melhor lide? A lide concretizada, a lide da alternativa no Redondo

Um/a Cavaleiro/a? Luís Rouxinol

Uma ganadaria? Varela Crujo, a da minha alternativa

Um forcado? Posso dar muito valor ao Nuno Mata

Um toureiro? José Tomaz (matador de toiros espanhol)

Um bandarilheiro? Vou ser sentimental, Joaquim Almeida (namorado), por ter entrado no mundo dos toiros por mim

Uma praça? Campo Pequeno

Um cavalo? O meu cavalo de guerra, o Palmela

Um colega? Sónia Matias, pela sua simpatia e pelas suas palavras de incentivo

Um clube? Sporting

Um jogador? Ronaldo

Um filme? O Cavalo de Guerra

Um destino de férias? Caraíbas

Um país? Áustria

Uma cidade? Madrid

Praia ou campo? Campo

Comida favorita? Bacalhau com natas e lasanha

Um sonho? Ser figura do toureio

 

Uma palavra/sugestão para o Forcadilhas e Toiros

Continuar com o trabalho feito, que tem sido bom e tem dado muitos frutos, devendo apostar na continuação promovendo a Festa Brava.

 

Autores da  entrevista: FRANCISCO PENHA / ARMANDO ALVES