Periodicidade: Diária - Director: Armando Alves - 12/06/2021.
 
 
À CONVERSA COM....JOSÉ BALDAYA (GANADARIA REGO BOTELHO)
À CONVERSA COM....JOSÉ BALDAYA (GANADARIA REGO BOTELHO)
25 de Maio de 2021

Todo o esforço, trabalho e dedicação têm os seus frutos
No ano em que se comemoram 10 anos de uma importante noite no Campo Pequeno, estivemos à conversa com.... Ganadaria Rego Botelho através do seu representante José Baldaya a quem neste dia desejamos um feliz aniversário.

FT – A ganadaria Rego Botelho é uma das mais antigas ganadarias açorianas. Em que ano foi fundada?

RB - Foi fundada em 1953.

FT – Como surgiu e quem a fundou?

RB - A ganaderia de Rego Botelho foi fundada por Gaspar Baldaya Bettencourt Silva de Rego Botelho, o meu pai, devido à sua grande afición.

FT – Quem a dirige e/ou representa?

RB - Eu, José Baldaya da Câmara de Rego Botelho, sou desde 2014, seu legítimo e legal proprietário, assessorado pela minha filha Mariana.

FT – De que forma é efetuada a manutenção da ganadaria e quem está por detrás dela?

RB - Diariamente somos 4 pessoas a trabalhar na ganaderia, eu, a minha filha Mariana e 2 colaboradores. Existem muitas pessoas que aos fins-de-semana e sempre quando tem disponibilidade nos ajudam.

FT – Qual a origem das vacas e sementais “fundadores” da ganadaria?

RB - Gaspar Baldaya Bettencourt Silva de Rego Botelho herdou de seu pai 10 vacas, Sr. João Baldaya de Rego Botelho. Nesse mesmo ano foram adquiridas 12 vacas a José de Castro Parreira. No início esta última ganaderia terceirense emprestava os sementais.

Em 1963 foi comprado 1 toiro a Diamantino Viseu e 12 vacas a José Albino Fernandes.

Em 1966, herdadas por D. Maria João Parreira Forjaz da Câmara de Rego Botelho de seu tio, Pedro de Meneses Parreira Pereira, foi o efetivo aumentado em mais 28 vacas.

Nesse mesmo ano, foi adquirido 1 toiro a David Ribeiro Teles, em 1970 mais um toiro do mesmo ferro e em 1972 mais 8 toiros puros de ferros diversos.

Em 1973 foi comprado 1 toiro a Álvaro Inácio Gomes, da ganaderia de Castro Parreira, oriundo da ganaderia Palha.

Em 1974 foi comprado mais um toiro a David Ribeiro Teles e em 1975 6 toiros à Sociedade Agrícola de Santo Estevão, de ferros diversos.

Em 1979 foram adquiridas 9 vacas a diversos ferros.

Em 1980 foram compradas a David Ribeiro Teles mais 13 vacas e em 1989 sementais Oliveira e Irmão e Brito Paes.

Finalmente em 1993 e a partir dessa data foram adquiridas vacas a Simão Malta e a Jandilla, e juntamente com sementais desta última divisa. A partir dessa data até 2014 foram adquiridos vários animais, tanto vacas como sementais de Jandilla.

Em 2019 foram adquiridos 2 sementais, às ganaderias portuguesas Calejo Pires e a São Torcato.

FT – Qual a diferença entre o tipo de vacas?

RB - Temos a ganaderia dividida em 2 linhas completamente distintas, uma para a corrida de praça e a outra para a tourada à corda (manifestação taurina tradicional aqui na Ilha). A grande diferença nos animais destas 2 linhas é o seu tratamento alimentar, pois as mães dos toiros da corda são animais mais rústicos e pastam em zonas mais altas e quase todo o ano o seu alimento é somente o pastoreio, enquanto que as vacas de lide durante todo o ano comem um bocadinho de ração e durante o Inverno o seu tratamento é suplementado com ervas encilhadas.

FT – A vossa ganadaria tem toiros para os diversos tipos de toureio: a cavalo, a pé e para a corda? Como são seleccionados os animais para cada tipo de toureio?

RB - Em primeiro lugar, quer seja para a corrida de praça ou para a tourada à corda, todas as fêmeas são selecionadas para serem reprodutoras e os machos para sementais. As fêmeas de lide selecionamos numa tenta onde as mesmas tem que ser aprovadas nas duas sortes, nas varas e na muleta, e depois de serem aprovadas na tenta, os meses depois, são “testadas” na lide do toureio a cavalo, com os nossos cavaleiros locais e os dois grupos de forcados.  Se for para tourada à corda, as fêmeas são tentadas por capinhas (toureiros de rua) e tem que ser aprovadas para ficarem para mães.

FT – Qual a designação ou denominação das crias nas várias etapas etárias, desde que nascem até á idade de serem lidadas ou de padrear no campo?

RB - Bezerros (0 ao ano e meio), novilhos (ano e meio a 3 anos), toiros (4 anos ou mais) e semental (animal aprovado para padrear na ganaderia).

FT – De que forma avaliam a bravura das vacas e quais os critérios utilizados?

RB - As características que para nós são essenciais num animal para ser aprovado são: tem que vir a mais, acudir ao toque, ritmo, humilhar, fijeza, arrancar-se de largo, ser pronto na investida e ter recorrido.

FT – Geralmente, por quem é efetuada essa avaliação?

RB - Por mim e pela Mariana.

FT – Há alguma altura específica para a sua realização?

RB - Normalmente, desde há uns anos pra cá, é organizado pela Tertúlia Tauromáquica Terceirense e pelos ganaderos de lide, interessados, um fim-de-semana que se intitula de Ciclo de Tentas publicas, que são realizadas no último trimestre de cada ano. Antes da realização do Ciclo de Tentas, nós sempre tentámos os animais com toureiros vindos da Península, muitas vezes convidados e amigos do toureiro terceirense Mário Miguel.

FT – Após essa avaliação qual o destino das vacas?

RB - As vacas aprovadas ficarão para reprodutoras na ganaderia e as reprovadas vão para o matadouro.

FT – Quais os maiores cuidados de saúde e alimentares que têm com os vossos animais?

RB - Os cuidados sanitários que temos são os normais e regulares que se pode ter com o gado bravo, como por exemplo, as desparasitações de 6 em 6 meses e o saneamento efetuado pelos serviços agrários de ilha.

Em termos de alimentação a diferença que existe entre o tratamento do gado de lide para o gado da corda, é que o animal de lide desde que nasce até ser lidado come sempre ração.

FT – Qual a importância do ato de ferrar o gado?

RB - O ato de ferrar é um trabalho de campo sério de identificação do gado, que é realizado em todas as ganaderias, mas aqui na Ilha além disso, é um dia em podemos estar com amigos e aficionados da ganaderia, no qual oferecemos um almoço de convívio.

FT - O que são as tentas e qual a sua importância?

RB - A tenta é uma testagem de bravura para a seleção de futuras mães, e essa é a sua grande importância.

FT – Qual a importância do Picador nas tentas?

RB - O picador faz parte da tenta e a sorte que ele executa demonstra o nível de bravura das novilhas.

FT – Para além da participação no Ciclo de Tentas Comentadas, a ganadaria participa em mais algum evento?

RB - Além das corridas de praça e as touradas à corda, participamos em festivais taurinos e em 2019 participamos no primeiro Arraial Taurino realizado na Ilha Terceira, o qual a sua segunda edição seria este ano, mas devido a situação pandémica não se irá realizar.

FT – Em 19 de Maio de 2011, a ganadaria foi premiada com o galardão para o melhor curro de toiros e melhor toiro lidado no Campo Pequeno. Qual a importância desse prémio?

RB - Foi o acontecimento mais importante da nossa ganaderia e que muito nos honra. Um marco histórico tanto para a ganaderia como para a Tauromaquia Terceirense. Além destes dois galardões que recebemos pela época de 2011 no Campo Pequeno, fomos honrados também pela Tertulia Tauromaquica Nª Sª do Carmo em Sousel com o galardão do melhor toiro de toda a temporada taurina de 2011 em Portugal.

FT – Algum dos toiros lidados nessa noite voltou ao campo?

RB - Sim voltaram 2, o terceiro toiro com o costado número 17, lidado pelo António Ferrera e o sétimo, com costado número 4, lidado pelo Luís Bolivar.

FT – Quais os fatores determinantes para este sucesso?

RB - A aquisição que fizemos em Espanha da ganaderia Jandilla foi a base do sucesso em conjunto com o nosso trabalho de seleção.

FT – Quais as razões para não termos voltado a ter nenhum curro vosso nas praças Continentais?

RB – Somente por razões económicas, pois posso acrescentar que tivemos vários convites após esse grande triunfo.

FT – Quais as maiores dificuldades sentidas na manutenção da ganadaria, nomeadamente no ano findo (2020), com a pandemia mundial provocada pelo COVID-19?

RB - A continuar a ter as mesmas despesas com a manutenção da ganaderia e não ter receitas. No entanto, tivemos a sorte de o Governo Regional ter sido sensível à situação das ganaderias açorianas dando algum apoio. Esperamos que o mesmo se repita com algum reforço.

FT – Com a não realização de touradas à corda e com a forte diminuição de corridas devido à referida pandemia, muitos dos animais ficaram na ganadaria. Irão ser utilizados na próxima temporada?

RB - Já tivemos que abater alguns animais o ano passado, pois sabíamos de antemão que não os iriamos correr, e como este ano prevê-se a mesma situação, provavelmente iremos ter que abater mais animais.

FT – Apesar das atuais incertezas para o ano 2021, já possuem toiros apartados para as eventuais corridas?

RB - Sim, temos 10 toiros de 4 anos e 15 novilhos de 3 anos.

FT – Preveem a exportação de alguns dos animais?

RB - Não.

FT – Todos os anos, em “tempos normais”, conseguem utilizar a camada existente?

RB - Normalmente sim.

FT – Marcar presença nas corridas que fazem parte das festas mais importantes da ilha, dá por certo mais prestígio à ganadaria. De que forma o sentem?

RB - Claro que dá prestigio e sentimos muito honrados. Aliás marcamos presença continua à mais ou menos 60 anos.

FT – Consideram importante a presença de matadores espanhóis tanto nas Tentas como nas Corridas de Toiros realizadas na Ilha?

RB - Sejam os toureiros espanhóis ou portugueses o que nos interessa é que tenham qualidade!

FT - Quando se deslocam a feiras, por exemplo a Espanha, vão apenas pelo espetáculo ou pela busca de algum tipo de toiro para a ganadaria?

RB - Vamos pelo o espetáculo e pela Feira!

FT – No dia 30 de Outubro de 2019 chegaram à ganadaria dois novos sementais de distintas proveniências. Um da ganadaria Calejo Pires e o outro da ganadaria São Torcato. Sabendo-se que a Calejo Pires está mais vocacionada para o toureio a pé e face ao objetivo da aquisição, já obteve algum dos resultados esperados?

RB - Ainda não, é muito cedo, somente desde Março é que começaram a nascer os primeiros bezerros deste toiro.

FT – Estando a ganadaria São Torcato mais vocacionada para o toureio a cavalo, que resultados já obteve ou espera obter?

RB - Ainda não, pois apenas no inicio de Abril é que começaram a nascer os primeiros bezerros deste toiro.

FT – Já possuíam vacas para cada um dos tipos de sementais?

RB - Sim.

FT - Qual o significado da homenagem realizada pela Tertúlia Tauromáquica Praiense na sua III Gala da Tauromaquia?

RB - Qualquer homenagem feita é sempre importante, porque homenageiam o fundador, o meu pai e todo o trabalho feito ao longo destes anos! É claro que sermos homenageados a nossa Terra tem um “gosto” diferente pois só demonstram que estamos a ir no caminho certo. Só temos a agradecer à Tertúlia Tauromáquica Praiense este feito.

FT – Qual a vossa visão sobre o estado da tauromaquia na Ilha e o que pensam que deveria ser feito para a melhorar?

RB - Em termos da Tauromaquia Popular, penso que são realizadas demasiadas Touradas à Corda, cada vez mais querem é dar e ter muitas touradas e não pensam na qualidade, na minha opinião deveriam haver metade das touradas com muito mais qualidade e os arraias mais curtos! Em termos da Corrida de Praça tenho pena que tenhamos perdido a sorte de varas, somente por causa dos nossos governantes.

FT – Uma presença assídua na ganadaria tem sido a filha Mariana. Já se encontra preparada para tomar “as rédeas” da ganadaria?

RB - Enquanto eu puder vou continuar à frente da ganaderia, porque como diz o ditado “o que se faz por gosto não cansa” e a Mariana vai continuar a estar ao meu lado ajudando no rumo do melhoramento da ganaderia.

FT – O que consideram necessário numa mulher para conduzir uma ganadaria como a vossa?

RB - No meu caso, a minha filha desde que nasceu sempre gostou de gado bravo e ao longo dos anos foi se inteirando e cada vez mais é uma apaixonada pela ganaderia. Mas a verdade, é que não vejo diferença em ser mulher ou homem, tem que se gostar muito e ter muito afición.

FT – Projetos futuros?

RB - Neste momento, devido à situação actual, não podemos pensar em projectos, já é um grande feito tentar manter a ganaderia.

NUMA PALAVRA:

Um ganadeiro?

Juan Pedro Domecq y Diez

Um toiro?

Cobradiesmos

Um picador?

Dionisio Grilo

Um toureiro?

José Tomás

Um bandarilheiro?

Curro Javier

Um monumento taurino?

Monumento ao Toiro em Angra do Heroísmo

Um cavalo?

Ferrolho de João Moura

Uma praça?

Maestranza de Sevilha

Uma ganadaria?

Nunes del Cuvillo

Um matador?

José Tomás

 Um forcado?

Meu amigo Simão Comenda

Um cavaleiro?

João Moura

Um jogador?

Maradona

Um filme?

Trinitá

Um país?

Portugal

Uma cidade?

Sevilha

Praia ou campo?

Campo

Um destino de férias?

Sevilha durante a Feira de Abril

Um clube?

Sport Clube Lusitânia

Comida favorita?

Carne de Novilho Angus Grelhada

Um sonho?

Lidar uma novilhada na Maestranza de Sevilha

FT – Uma palavra/sugestão para o Forcadilhas e Toiros.

RB - Tenho a agradecer a entrevista e que continuem a trabalhar em prol da Festa Brava!!!

Um bem hajam!!!

Fotos e texto: Armando Alves, Célia Doroana, António Valinho, Facebook Ganadaria Rego Bottelho